Como criar um pitch deck melhor: o guia de Kevin Hale (Y Combinator)

🌐 Tradução

Este artigo é uma tradução de “How to Design a Better Pitch Deck”, de Kevin Hale (Y Combinator), feita por Guilherme Negri. Todos os exemplos e imagens são do artigo original — crédito integral ao autor e à YC.

Um bom slide de pitch deck é legível, simples e óbvio. Se as pessoas não conseguem ler, entender ou captar sua ideia num piscar de olhos, elas não vão lembrar da sua startup — e é isso que decide se um investidor quer conversar com você depois.

Provavelmente existem 100 razões pelas quais sua empresa é ótima, mas as pessoas só conseguem lembrar de algumas depois de uma apresentação curta. No Demo Day da Y Combinator, você terá sorte se os investidores lembrarem de 1 ou 2 pontos entre outras 100 empresas apresentando ao mesmo tempo.

Se você simplesmente comunicar seus pontos de forma clara, fará melhor que 99% das startups — porque antes de alguém lembrar, precisa entender. É assim que isso se facilita:

  • Torne-o legível.
  • Torne-o simples.
  • Torne-o óbvio.

Veja como fazer as pessoas NÃO entenderem

  • Tornando-o ilegível.
  • Tornando-o complicado.
  • Tornando-o sutil.

🔨 Repetindo com força

Seus slides NÃO devem ser ilegíveis, complicados ou sutis. Devem ser legíveis, simples e óbvios.

Legibilidade

Se as pessoas não puderem ler, não conseguirão entender. No Demo Day, a sala tem mais de 500 pessoas — nem todas sentam na primeira fila, e um bom número tem visão que já não é das melhores.

Slides legíveis são aqueles que até pessoas na última fila, com visão ruim, conseguem ler:

  • Use letra grande.
  • Texto em negrito.
  • Uma fonte simples.
  • Bom contraste com o fundo.

Texto no topo também é mais fácil de ler do fundo da sala. Alguns exemplos — este não é exatamente terrível, mas o contraste e o posicionamento do texto atrapalham:

Está melhor, mas ainda há texto demais não otimizado para legibilidade:

E aqui uma versão legível do fundo da sala inteira:

O slide a seguir é da Shred Video, da apresentação deles no Prototype Day — o slide que deveria explicar o que a startup constrói:

O texto é pequeno demais e muito fino, e a parte que realmente explica o produto está escondida em cinza claro na base do slide. A tecnologia deles é incrível — o software edita automaticamente horas de gravação bruta em algo que parece profissional em segundos — mas isso ficou escondido. Até o Demo Day, a descrição foi simplificada e o texto usado passou a ser grande e em destaque.

Simplicidade

Ideias simples são fáceis de entender. Mas o que isso significa? “Simples” e “complexo” têm a mesma origem etimológica:

A palavra “plex” significa trançar, torcer ou dobrar. Ideias simples são aquelas que não estão entrelaçadas com outras ideias — são uma dobra, uma ideia só. Um slide simples expressa uma ideia. Não entulhe seus slides com várias ideias: é assim que se torna complexo.

Como você só tem 5-7 ideias para passar aos investidores, não deve ter muitos slides — idealmente, o Demo Day tem apenas 5-7 slides. Aqui está uma versão bem inicial de um slide da Afrostream explicando o que fazem:

Duas ideias tentando ser transmitidas ao mesmo tempo, com texto demais. Poderia ter sido aceitável só com as partes destacadas, mas eles cometeram um erro comum: tentaram colocar todas as nuances do negócio num slide só. O resultado é um slide que ninguém lembra facilmente. Em contraste, o slide que acabaram usando no Demo Day:

Como uma lufada de ar fresco — curto, doce, fácil de lembrar. Depois de decidir qual ideia transmitir em um slide, é preciso garantir que o público encontre essa ideia. A melhor forma de ajudar é torná-la óbvia.

Obviedade

Slides óbvios são entendidos num piscar de olhos. Um teste simples: mostre a um estranho e peça que diga o que significa. Se ele não disser imediatamente a sua ideia, você perdeu.

Ideias óbvias são rápidas de entender — e a velocidade importa porque, numa apresentação de Demo Day: você só tem 2 minutos e 30 segundos, e as pessoas se distraem facilmente. Investidores se distraem ainda mais que a média, porque são impacientes: se não entendem seu ponto na hora, checam o e-mail. A saída é garantir que qualquer slide seja entendido imediatamente, mesmo que olhem de relance.

Um exemplo de slide que não é explícito — dá pra adivinhar que é algum tipo de gráfico de crescimento, mas não fica imediatamente claro:

Melhorou, mas a ideia ainda poderia estar mais na cara:

Boom — é como colocar um resumo escolar direto no slide. Não há necessidade de adivinhar como a startup está indo, ficou explícito:

Outra variação da mesma lógica:

Sem a legenda, seria preciso estudar o gráfico para chegar à conclusão. Só escrever a conclusão já significa que quase não é preciso olhar para o gráfico.

Outra forma de tornar os slides óbvios é evitar distrações de informação. Aqui está uma forma de mostrar como o Dropbox funciona:

Nada mal, mas não é óbvio — há informação demais para ser entendida imediatamente:

Toda essa tranqueira leva tempo para compreender. Existe uma lei da interação humana chamada Lei de Hick: cada pedaço de informação adicionado a um problema tem um custo — mais escolhas aumentam o tempo de decisão de forma logarítmica. Diagramas são pequenos labirintos para ideias, e você não quer que investidores percam tempo tentando entender um. Você quer que eles entendam imediatamente por que você é incrível — o caminho para a ideia precisa ser direto e rápido.

Outras distrações a evitar nos slides: texto demais, explicações e ressalvas excessivas, branding excessivo por slide, fotos sem títulos ou legendas, animações, transições, memes, humor sutil, humor acidental. Basicamente: não tente fazer dos slides a coisa de que as pessoas vão se lembrar.

Investidores investem em equipes, não em slides. Seus slides devem tornar suas ideias mais claras — não distrair do que você está dizendo em voz alta. Você quer que fiquem impressionados com você, não com seus slides.

Existe uma exceção: quando o ponto é justamente mostrar complexidade ou sobrecarregar o público — comum quando a startup quer explicar o quão difícil é o problema que resolve. Um exemplo do slide deck da Magic:

Nesse slide eles mostram que o software abstrai milhares de serviços numa única interface. Para reforçar o ponto, mostram um slide com todos os serviços on-demand que conseguiram pensar, organizados numa grade:

Normalmente não é ideal mostrar todos os concorrentes possíveis do mercado — mas aqui os logotipos representam o problema: para aproveitar todos esses serviços, o usuário teria que criar uma conta em cada um. É um problema de descoberta e usabilidade proposital, e é geralmente quando é aceitável dobrar as regras.

A porra das capturas de tela

Capturas de tela em apresentações de Demo Day quebram as 3 regras de uma vez: o texto da interface é pequeno demais (não legível), a maioria das interfaces faz várias coisas (não simples), a maioria leva mais que um olhar para entender (não óbvio). Uma busca no Google por “screenshots”:

Você consegue entender alguma dessas imagens imediatamente? Não. Se você está tentando mostrar o que faz, mostre a versão mais simplificada — uma lista de passos em tópicos é a técnica favorita para isso:

Esse slide explica a facilidade de uso do produto da SparkGift muito melhor do que qualquer fluxo de trabalho da interface real poderia. Às vezes uma empresa tem a sorte de explicar o que faz em dois pontos — como a Meadow fez:

Esse slide é muito melhor do que qualquer combinação de botões, links e chrome que poderiam ter usado para expressar a mesma ideia. A mesma frustração com capturas de tela vale para screencasts e vídeos — pense duas vezes antes de usar qualquer um deles.

Resumo

  • Torne-o legível.
  • Torne-o simples.
  • Torne-o óbvio.

Se você fizer apenas essas três coisas, terá uma apresentação que qualquer pessoa provavelmente vai entender. E como o entendimento é a base para deixar alguém empolgado o bastante para querer conversar com você depois, é um ótimo lugar para começar.

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