Temos um amor desproporcional por nossas próprias ideias, afinal cultivamos elas com muito carinho, no banho, no carro ou quando estamos caminhando no parque.

Desenvolver novas ideias é um processo maravilhoso. Sempre imaginei que trazer as ideias pra realidade é realizar uma viagem, transportar as nossas ideias de um universo particular para uma realidade compartilhada.

Sabemos que muitas pessoas não realizam esta “viagem” por medo de se frustrar, a maioria das pessoas tem medo de expor as suas ideias. É fácil entender, uma ideia que foi forjada em nosso íntimo ser exposta em poucos segundos para alguém é brutal. E se a pessoa me achar um idiota?

Temos medo de nos expor e de nos frustrar.

Este comportamento se estende para empresas e startups, muitas pessoas acreditam que em ambientes de inovação novas ideias fluem com mais facilidade, mas quando olhamos na prática, percebemos um volume absurdo de ideias travadas e de pessoas com medo de se expor.

O fundador ainda não decidiu a precificação, pois precisa rebuscar o estudo sobre concorrência, o time de produto ainda não soltou o NPS, pois precisa criar uma experiência de usuário mais fluida, o time de vendas ainda não apresentou o novo produto, pois não tem uma apresentação bem feita.

Dentro de uma instituição este comportamento tende a ganhar força, por que agora você vai frustrar o time que encara todo dia, o medo de parecer um idiota perante os seus colegas de trabalho é enorme.

Quando diagnosticamos este cenário dentro de uma empresa, fundadores correm pra implementar processos, querem criar dailys, weeklys, rodar mais experimento, ou seja, querem resolver de forma operacional.

Sabemos que a raiz do problema não é operacionalfazer as pessoas se encontrarem em uma reunião não vai tirar o medo delas.

O que queremos resolver é como criar um ambiente onde a experimentação é algo natural, expor ideias incompletas é algo louvável e errar é uma fonte de aprendizado.

Como vencer o medo de errar? Como vencer o medo de se frustrar? Como vencer o medo de parecer um idiota perante o time?

Agressividade funciona apenas no curto prazo

Podemos encarar este processo de inovar, validar novas ideias como algo brutal. Jogar nossas ideias em um coliseu da realidade, ver estas ideias digladiando e descobrir se elas sobrevivem aos leões.

Esta abordagem mais agressiva é muito comum, e muito fomentado, frases como: “Vença o medo e toca pau“, “Faz aí e vemos depois“, “Você tem uma semana pra testar”.

Uma abordagem agressiva para validar novas idéias funciona no curto prazo

Uma abordagem agressiva funciona no curto prazo, esta energia vai fazer o time se mover, mas é uma energia muito cara pra se manter no longo prazo. Especialmente em startups onde a inovação é fator crítico de sucesso.

Usar a agressividade como abordagem pra liderar a movimentação do seu time é como se preparar para ir pra uma guerra. Na primeira vez você entra na onda dos demais soldados, na segunda vez você vai empurrado, na terceira vez você vai questionar se faz sentido tudo o que esta sendo feito.

No fim a agressividade é um paliativo, as pessoas ainda continuam com medo de se expor, elas se movimentaram por que naquele momento a agressividade as empurrou pra frente.

Validar algo novo é viajar, aproveitar a jornada e trazer o tesouro

Toda vez que nos deparamos com este cenário em uma startup convidamos os fundadores a refletirem sobre esta escolha e convidamos eles a olharem por outro ângulo. Que tal abordar a validação de um novo produto como uma viagem a um país desconhecido?

Quando viajamos para um país desconhecido é natural que você não entenda língua falada, é esperado que você vá se perder caminhando, você vai cometer gafes e errar os costumes locais. Estas situações são esperadas e aceitáveis.

Quando estamos com esta abordagem em um processo de inovação, seja validando um novo modelo de negócio ou uma feature conseguimos observar a realidade com mais acurácia, não vamos tentar estar certos, mas observar a realidade e ver o que esta dando certo.

Sim, em uma viagem de exploração vamos falhar, muitas das nossas hipóteses vão estar erradas, mas nesta abordagem de exploração é natural.

O medo de expor ainda vai existir, mas em um ambiente onde ele pode ser acolhido, ele é aceito como parte da jornada.

É neste ambiente de exploração natural que geralmente encontramos ouro, é neste momento em um local novo e desconhecido que conseguimos realizar novas conexões e encontrar novos caminhos.

Esta abordagem serve tanto pra você explorar suas ideias pessoais quanto pra empresa. Ao apresentar suas hipóteses inovadoras pra alguém, convide-a ela pra esta jornada, para viajar contigo. Você vai tirar o peso de estar certo das suas costas e consequentemente de ser julgado e também tira a responsabilidade do seu interlocutor ser o juiz, ele está contigo nesta jornada também.

Na prática, o que proponho é atacar o problema raiz que impede da inovação acontecer, o medo das pessoas se exporem.

É claro que também não é um passeio no parque, a iniciativa é necessária, é preciso coragem pra rumar ao desconhecido, mas uma vez na jornada, acolher a incerteza é um caminho muito mais produtivo pra quem quer inovar.

Enfim, fica o convite pra reflexão: Quando inovar, ao invés de combater a incerteza com agressividade, que tal abraça-la?